Ex-procurador ouviu gravações de Temer ainda no cargo, diz delator
Ex-procurador ouviu gravações de Temer ainda no cargo, diz delator

Ex-procurador ouviu gravações de Temer ainda no cargo, diz delator

O delator da J&F Francisco de Assis disse que o ex-procurador Marcelo Miller ouviu as gravações que envolvem o presidente Michel Temer antes de deixar a Procuradoria. O depoimento de Francisco de Assis foi nas investigações que podem levar à anulação dos benefícios do acordo de delação.

Em Brasília, na carceragem da Polícia Federal, Joesley Batista e Ricardo Saud receberam a visita do advogado, que saiu com pressa. Delegados tentaram nesta terça-feira (12) ouvir Joesley em outra investigação – a que apura desvios em fundo de pensão. Mas ele ficou calado.

Já as negociações para a revisão dos benefícios concedidos aos executivos da J&F estão em um impasse. Para a manutenção do acordo, procuradores propuseram que Joesley Batista e Ricardo Saud cumpram 15 anos de prisão em regime fechado e domiciliar, e paguem o dobro do valor da multa fixada em maio, quando o acordo de delação foi assinado. A defesa não aceitou.

A defesa do ex-procurador Marcelo Miller pediu ao Supremo que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e outros integrantes do Ministério Público Federal prestem depoimento. A defesa diz que Miller não teve atuação ilegal no MP.

Na sexta-feira (8), Janot pediu a prisão de Miller com o argumento de que ele teria ajudado os executivos da J&F a filtrar informações, escamotear fatos e provas e ajustar depoimentos – quando ainda era procurador e sem o conhecimento de seus superiores.

O ministro Luiz Edson Fachin, do STF, negou o pedido, mas autorizou buscas na segunda-feira (11) na casa de Marcelo Miller. O celular de Miller foi apreendido e já está sendo examinado.

No depoimento prestado na quinta-feira (7), na Procuradoria-Geral da República, o diretor jurídico da J&F, Francisco de Assis e Silva, também um delator, informou que foi ele, Francisco, que apresentou Miller a Joesley Batista, e que, logo depois disso, Joesley decidiu fazer delação premiada.

Francisco também informou que Marcelo Miller participou do momento em que o escritório de advocacia foi contratado pela J&F. Nessa época, ele ainda era procurador

No dia 6 de março, Francisco diz que recebeu na J&F Marcelo Miller e Esther Flesch, então advogada do escritório, e que nesse dia assinou o contrato para tratar da leniência e que achava que estava diante de um ex-procurador e não com um representante do Ministério Público ainda no cargo

Francisco contou que foi ele que apresentou Miller a outro executivo da J&F, Ricardo Saud, no dia 9 de março, e que o encontro foi um desastre porque Miller disse que Saud era um criminoso e que deveria se comportar como tal.

Francisco disse que, depois disso, Miller e Saud se encontraram mais cinco vezes, a sós.

Francisco afirmou que, ao que sabe, Marcelo Miller teve acesso aos anexos de Ricardo Saud e que Miller ouviu três áudios. Um deles, a parte do presidente Michel Temer, antes de deixar o Ministério Público.

E-mails entregues pelo escritório de advocacia onde Marcelo Miller trabalhou mostram que ele repassava informações a duas advogadas que trabalhavam no escritório enquanto ainda era procurador.

No dia 16 de março, ele mandou e-mail para Esther Flesch e Camila Steinhoff. Relatou que uma advogada da J&F que atuou na delação já estava conversando com o MP. “Eles já estão conversando com o MPF, mas não sei se vão contar para vocês. Talvez vocês possam perguntar se já houve algum contato, como se eu não tivesse te contado nada. Acho provável que eles abram alguma coisa para vocês sobre isso, mas não tudo”.

Em seguida, dá um conselho que mostra que ele, ainda como procurador, fala como se já estivesse atuando junto com as advogadas do escritório. “A partir daí, talvez convenha estabelecer em algum nível os termos de referência do relacionamento entre nós e ela, a advogada. Lembro que a Fernanda é claramente protegida do Francisco”.

Uma das advogadas que trabalhavam no escritório submete à avaliação de Marcelo Miller uma proposta que sequer tinha sido formalizada. Era o rascunho do texto em que o escritório de advocacia demonstrava interesse em atuar na área de compliance, ou seja, de combate à corrupção na J&F.

O título do e-mail é “termos gerais de contratação”. O e-mail é do dia 5 de março. “Marcelo, veja o que acha desta minuta. Depois que você comentar, mando por e-mail para ele”.

A minuta que seria enviada ao diretor jurídico da J&F diz: “Teremos grande satisfação em assessorar a JBS na avaliação de riscos (risk assessment) referente a assuntos de compliance de diversos temas, inclusive anticorrupção”.

Quando Miller ainda era procurador, ele também respondeu a advogadas do escritório sobre questões relacionadas a improbidade administrativa no âmbito de um financiamento no BNDES, e opinou até sobre colegas procuradores que, pela área de atuação, poderiam analisar o caso.

O e-mail é de 14 de fevereiro. Marcelo escreve: “O perfil dos membros do MPF. Conferi no sítio eletrônico a composição dos ofícios de ordem econômica da Procuradoria da República em São Paulo”. Marcelo coloca nomes de três procuradores e avalia: “Nenhum deles tem reputação conspícua (notória) seja por trabalhar demais, seja por querer aparecer demais. Espero que isso possa te ajudar.”

O que dizem os citados
A advogada Ester Flesch declarou que sempre se pautou pelos mais altos padrões de ética e transparência e que sempre seguiu as orientações do escritório onde trabalhava.

O Jornal Nacional não conseguiu entrar em contato com a advogada Camila Steinhoff.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Cláudio Lamachia, decidiu suspender cautelarmente, ou seja, de forma preventiva, a carteira de advogado do ex-procurador do Ministério Público Federal Marcelo Miller. Ele está proibido de trabalhar como advogado até o fim do processo ético-disciplinar aberto contra ele na OAB do Rio de Janeiro. O advogado de Marcelo Miller disse que a decisão está em total desacordo com o estatuto da OAB, porque ele não foi notificado do processo de suspensão.

Fonte Jornal Nacional


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