Tédio: saiba por que ele é importante para o seu filho
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Tédio: saiba por que ele é importante para o seu filho

“Nada melhor do que não fazer nada”. Parece impossível essa frase combinar com o dia a dia do seu filho, ainda mais agora com a volta às aulas? Saiba que os momentos de tédio são fundamentais para ele. Veja o que as crianças aprendem com isso e como ajudá-las a aproveitar bem o tempo livre

“Mãe, não tem nada para fazer!” Atire a primeira massinha, boneca, carrinho ou bloco de montar quem jamais ouviu uma frase assim dos filhos. Nunca houve tantas possibilidades de entretenimento e diversão para as crianças, é verdade. Mas, mesmo com tantas opções – quartos cheios de brinquedos, jogos, viagens, fantasias, videogame, livros e filmes que podem ser assistidos até mesmo em um celular –, parece que elas se entediam cada vez mais depressa. Tem explicação?

Sim! O grande fluxo de informação, a pressão por ser produtivo o tempo todo e o escancarado incentivo ao consumo colocam o trabalho como a coluna espinhal da vida moderna. “Tudo se organiza a partir da demanda profissional. Refeições em família, tempo para fazer uma atividade física, para praticar a espiritualidade, tudo vem depois”, explica a psicóloga Ieda Rhoden, doutora em Ócio e Potencial Humano pela Universidade de Deusto (Espanha). Nessa configuração, há uma preocupação concreta dos pais em preparar os filhos para o mercado profissional no futuro. E o resultado você já sabe: crianças sobrecarregadas de afazeres. Além do tempo passado na escola e gasto na realização da lição de casa, muitas acumulam aulas extras. Sobra pouquíssimo tempo livre. E isso impacta profundamente o desenvolvimento infantil.  “Estamos criando adultos menos criativos, mais robotizados, que precisam estar ocupados o tempo todo e que sentem que está sempre faltando alguma coisa”, explica a psicomotricista e psicopedagoga Luciana Brites, do projeto NeuroSaber (SP).

É claro que com aulas de inglês, balé, natação, judô, mandarim e piano os pais só querem ter certeza de preparar bem os filhos para a vida adulta. E não há mal nenhum nisso. Mas é preciso equilíbrio: ter tempo para não fazer nada é essencial para que as crianças adquiram habilidades que vão fazer a diferença em toda a sua vida. Lidar com o tédio é uma delas. Existe um imperativo tão forte de que os pais precisam proporcionar atividades, estímulos e brincadeiras para os filhos o tempo todo que basta a criança ter algumas horas sem nada programado para ficar zanzando sem rumo e descontente porque simplesmente não sabe o que fazer. Ao verem os filhos angustiados, o primeiro impulso dos adultos é arrumar alguma coisa para distraí-los e aliviar o incômodo. Mas essa nem sempre é a melhor alternativa. “É preciso entender que a criança precisa ficar um pouco sozinha, para fazer as coisas no seu tempo e desenvolver a criatividade – ou simplesmente aprender a tolerar esse momento sem aflição”, diz o pediatra Roberto Cooper (RJ).

Menos estímulo

Para ele, os gadgets também contribuem para que os pequenos se sintam assim. “O problema é o superestímulo que eles fornecem. Por meio desses aparelhos, a criança se acostuma a vivenciar tudo muito rápido. Então, qualquer coisa com menos velocidade vai entediar”, explica. Além disso, esses eletrônicos proporcionam uma continuidade que é ao mesmo tempo cômoda e alienante: quando um vídeo do YouTube termina, outro começa em seguida. Quando a criança passa uma fase do jogo, a próxima se inicia imediatamente. Não há uma pausa sequer para pensar se quer continuar ali ou não. Então, ela acaba entrando em um modo automático de entretenimento.

Não estamos incitando uma guerra às tecnologias, pelo contrário. Mas vale reforçar que elas não devem ser a principal atividade das crianças no dia a dia, como você já sabe. Por isso, por mais que os eletrônicos pareçam uma alternativa sedutora e prática para aplacar o tédio – principalmente quando você mesmo está ocupado e não consegue dar atenção ao seu filho –, dê uma chance para que ele aprenda a driblar o marasmo por conta própria.

Foi uma experiência desse tipo que levou a diretora adjunta de Aprendizagem e Experiência no Museu de Arte de Columbus, em Ohio (EUA) Cindy Meyers Foley, a perceber a importância de deixar as crianças sem terem o que fazer. Em uma palestra do TED, realizada no começo do ano, ela contou que, sendo uma educadora que investiga o processo criativo há 25 anos, sempre fez de tudo para estimular seus dois filhos de todas as formas possíveis – de aulas de ioga para bebês a sessões de música clássica e exposições de arte.

Um dia, ocupada com os afazeres domésticos e pressionada pelos quilos de roupa para lavar que haviam se acumulado no cesto, ouviu os pequenos se queixarem de que estavam entediados. Perdeu a paciência: mandou-os brincar lá fora. Um tempo depois, quando chegou ao quintal, viu que a dupla tinha criado suas próprias piscinas, com bacias cheias d’água tiradas sabe-se lá de onde e ficou espantada. “Eles desenvolveram uma ideia, encontraram solução para concretizá-la e ainda colaboraram entre si para fazer dar certo. A educadora em mim ficou pensando: como eles foram criativos! E nesse instante eu percebi que poderia usar o tédio a meu favor.”

Mal que vem para o bem

Como você pode ver, é possível ajudar seu filho a extrair o melhor desse incômodo. Assim como a frustração e a raiva, o tédio não é um sentimento positivo, mas é também inevitável. É preciso saber que ele pode se manifestar de duas maneiras: quando estamos executando uma atividade que nos aborrece ou quando não conseguimos encontrar uma ocupação que realmente nos motive, fazendo com que nada nos pareça suficientemente interessante.

No primeiro caso, é um alerta de que a criança, por exemplo, não está mais engajada naquela atividade. O que é perfeitamente natural passado algum tempo. Você já deve ter presenciado isso aí na sua casa, em especial se tiver um filho com até 3 anos. Como as crianças menores não conseguem manter o foco por mais de 20 minutos seguidos em uma mesma tarefa, precisam de pausas periódicas para recuperar a energia e a atenção.

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Para a neuropediatra Silvana Frizzo, do Hospital Infantil Sabará (SP), o ideal é que elas façam vários intervalos de 20 a 30 minutos ao longo do dia, somando um total de três a quatro horas, pelo menos, para escolher o que fazer (ou não fazer). As maiores precisam ter pelo menos duas horas vagas, ou seja, sem atividades programadas, todos os dias. Isso é importante para dar um descanso à cabeça e também reforçar a aprendizagem. “Quando estamos sem nada para fazer, nosso cérebro constrói conexões. É quando ele elabora os estímulos que recebemos ao longo do dia: tudo o que ouvimos, vimos e sentimos. Principalmente para as menores, que absorvem muito conhecimento, é preciso ter tempo para apurar tudo isso”, explica Suzana.

Um estudo de 2008 da Universidade de Michigan (EUA) revelou que, quando o tédio começa a tomar conta, acontece uma espécie de desligamento no cérebro. Os pesquisadores realizaram um experimento com voluntários que precisavam identificar letras incansavelmente – até ficarem entediados! – enquanto passavam por uma ressonância magnética. As imagens mostraram que áreas ligadas à visão, ao processamento da linguagem e ao autocontrole ficam inativas. É como se algumas regiões cerebrais fossem desconectadas e não conseguíssemos mais nos concentrar em atividade alguma. Por esse motivo, estima-se que o tédio possa provocar uma queda de até 25% no desempenho escolar.

Isso mostra o quanto é produtivo que as próprias escolas possibilitem períodos para o brincar livre, para as atividades não estruturadas que possam oferecer esse “respiro” ao processo de aprendizagem. Mas hoje, com a pesada grade curricular que deve ser cumprida, em grande parte pelas instituições, esse tempo fica cada vez mais difícil. Por isso, cabe a você permitir que seu filho usufrua de tempo livre em casa, onde há menos obrigações.

Mas, prepare-se! A partir daí, inevitavelmente, o segundo tipo de tédio pode surgir, aquele causado pelo “nada para fazer”. É aí que você deve resistir ao impulso de (sempre) querer proporcionar atividades para a criança.  “Se fizer isso, ela nunca vai entender a importância de parar e ter um tempo para si mesma quando for adulta, nem aprenderá a lidar com seu tempo livre”, explica Ieda. Por isso, os pais devem interferir o mínimo possível, dando à criança a chance de encontrar mecanismos para se autoentreter – seja desenhando, lendo, brincando ou simplesmente aprendendo a ficar numa boa em sua própria companhia, sem sentir angústia por não estar ocupada.

“É preciso ficar ao lado dela, sem perturbar, simplesmente estar presente. O ideal é que seu filho saiba que tem o espaço dele e que você está ali, mas não vai invadi-lo”, completa Cooper. Veja bem: deixar a criança vencer o tédio sozinha não significa deixá-la sem ninguém por perto – até porque as pequenas, principalmente, precisam de supervisão e podem requisitar sua ajuda – nem sem ferramentas. Você pode criar em casa um ambiente com várias possibilidades para seu filho explorar (confira ao lado) e assim, ajudá-lo a descobrir o caminho para transformar o tempo livre em algo positivo: o ócio – até que, à medida que cresce, ele mesmo já tenha repertório para se autoentreter.

Quando Gabriel, 7 anos, reclamou com a mãe, a turismóloga Carine Zago, 42, que “não tinha nada para fazer”, ela desligou a TV,  se deitou ao lado dele no tapete macio da sala e disse: “Filho, a gente não precisa ter algo para fazer todo o tempo”. Esticados, lado a lado, os dois fecharam os olhos, sentiram a textura macia da tapeçaria e ficaram escutando os piados dos pássaros que vinham de fora. “Eu o enchi de beijos, rimos e ficamos ali um tempão! Quando fomos nos levantar, ele virou para mim e disse: ‘Mamãe, realmente às vezes é gostoso não ter nada para fazer’”, conta.

Tédio ou Ócio?

Como você pode perceber, existe uma linha tênue que separa o “fazer nada” do “nada para fazer”. Em outras palavras, o tempo livre pode se transformar em tédio ou em ócio, dependendo da maneira como se lida com ele. De acordo com Ieda, um é o oposto do outro. O ócio pode ser definido como uma experiência desfrutável, que acontece quando se faz algo por gosto, por prazer. É possível usufruir dele durante uma atividade artística, esportiva, social (como sair com os amigos ou cozinhar em família), do contato com a natureza ou do simples não fazer nada quando isso, ao contrário de gerar angústia, traz satisfação e proporciona a reflexão, a contemplação. O que importa é sentir que você realmente se desligou do resto e está totalmente entregue à experiência – uma descoberta que pode ser superbacana para o seu filho.
Foi o que aconteceu com Vinícius, 5, quando em uma tarde estava sendo tomado pelo tédio e decidiu ajudar a mãe, a consultora de marketing Suellen do Amaral Pugliessa, 33, a cuidar das plantas. Tomou gosto pela coisa. “Ele plantou seus próprios pés de mexerica e de melancia, cuida deles todos os dias. Isso realmente traz tranquilidade para ele”, conta Suellen. O segredo é justamente esse: encontrar mecanismos internos para transformar a angústia (tédio) em prazer (ócio).

Janela para a criatividade

Empresas, empreendedores e acadêmicos têm defendido com afinco o potencial criativo latente dos momentos de ócio. E não é para menos. “É aí que as ideias surgem porque a pessoa está inteira: cabeça, razão, emoção, corpo e espírito. Há uma entrega total à experiência”, diz Ieda. Além disso, o fato de não estar cheio de preocupações e obrigações abre espaço para os processos de criação. “Quando não há atividades estruturadas, a criança explora o ambiente a partir de seus recursos, criando e aprendendo”, afirma a psicóloga Caroline Pavan, da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) e doutoranda do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (Lapicc-USP). Em longo prazo, a imaginação e a criatividade desenvolvidas nesses momentos de vazio, vão ser importantes não apenas na vida profissional. A primeira traz a fantasia para o cotidiano, o que deixa a vida mais leve, e contribui para a socialização e a empatia – que nada mais é do que imaginar-se no lugar do outro. A segunda ajuda seu filho a resolver problemas, buscando soluções “fora da caixa” e dando combustível para que ele desenvolva seus próprios projetos.

Por isso, a partir de agora, ao escutar: “Mãe, não tem nada para fazer!”,  deixe com o seu filho. “Nada é perda de tempo no desenvolvimento infantil. Tudo acrescenta. E a criança precisa do tempo dela para pensar em coisas simples”, diz Luciana. Às vezes, a melhor forma de aproveitar o tempo é estar aberto e não fazer nada: contemplar o céu, sentir o tapete macio, fechar os olhos e ouvir os sons ao redor. É assim que a criança vai aprender a encontrar pequenas alegrias em cada momento da vida e saber aproveitar a cabeça livre para ter grandes ideias, grandes projetos. Hoje e no futuro.

FONTE: Crescer


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